O olho seco é a dificuldade de lubrificação dos olhos e tem várias causas e tipos. Como tratar: lubrificantes, limpeza dos cílios, ômega 3, plug lacrimal e luz pulsada — guia completo.
Doenças dos Olhos · Publicado em 18 de maio de 2024 · Atualizado em 07 de maio de 2026
O olho seco é uma condição em que o olho tem dificuldade de se lubrificar adequadamente. Causa incômodo, dificuldade visual, ardência, irritação, vermelhidão, cansaço na leitura prolongada e fotofobia (incômodo com a luz). Muitos pacientes sofrem de olho seco há anos sem ter o diagnóstico formal.
Neste guia você entende como o olho seco se forma, como é diagnosticado, os tipos principais e o que funciona pra tratar cada caso.
Composição da lágrima: as três camadas principais são mucina, aquosa e lipídica. A mucina é produzida pelas células da superfície ocular, a aquosa pelas glândulas lacrimais, e a lipídica pelas glândulas de meibomius.
A lágrima não é só água. Ela tem três camadas principais: mucina (produzida pelas células da superfície ocular), aquosa (produzida pela glândula lacrimal) e lipídica (produzida pelas glândulas de meibomius nas pálpebras). Quando qualquer uma dessas camadas falha, aparece o olho seco.
Receba artigos sobre saúde ocular
Cadastre seu e-mail e receba orientações sobre exames, tratamentos e cuidados com a visão.
Como é feito o diagnóstico do olho seco
História clínica detalhada (anamnese)
Essencial pra entender a gravidade dos sintomas, em quais situações aparecem, se há perda de qualidade de vida e se o paciente toma medicamentos que podem causar olho seco. Antidepressivos da classe ISRS (Sertralina, Citalopram, Paroxetina, Escitalopram e similares) são clássicos nesse sentido.
Avaliação da superfície ocular
Exame da córnea, conjuntiva, filme lacrimal e das glândulas de meibomius nas pálpebras (que são comprometidas na blefarite e meibomite, condições muito comuns em pacientes com olho seco).
Break-Up Time (BUT)
Teste com fluoresceína e luz azul de cobalto revela imperfeições na córnea que não são visíveis sem corante.
Com o uso da fluoresceína (colírio laranja), o oftalmologista cronometra quanto tempo o filme lacrimal demora pra se quebrar na superfície do olho depois do paciente piscar. É uma medida fundamental pra avaliar a estabilidade da lágrima.
Corantes especiais
Avaliam pequenas feridas microscópicas na córnea (ceratite) e na conjuntiva. Os três principais são: fluoresceína, verde lissamina e rosa bengala, usados em colírio ou em sticks.
Topografia de anéis de Plácido
A videoceratoscopia computadorizada avalia a regularidade da superfície da córnea. Útil em casos de olho seco moderado a grave.
Meibografia
Aparelhos novos (como o Keratograph) avaliam a anatomia das glândulas de meibomius de forma detalhada. Essencial pra diagnosticar disfunção das glândulas.
Teste de Schirmer
Teste de Schirmer: avalia a produção aquosa do filme lacrimal.
Importante na investigação da deficiência de produção aquosa. Na ceratoconjuntivite seca da síndrome de Sjögren, há queda significativa nesse teste. Usa pequenas fitas de papel pra medir a quantidade de lágrima produzida em 5 minutos.
Com anestésico: avalia a produção basal da lágrima
Sem anestésico: avalia a produção basal + reflexa
Causas especiais de olho seco
Síndrome de Sjögren
Doença autoimune sistêmica em que anticorpos do próprio paciente atacam as glândulas do corpo, principalmente as salivares e lacrimais, causando boca seca e olho seco. Investigação exige avaliação oftalmológica e reumatológica conjunta.
É comum em pacientes que já têm outras doenças reumatológicas (artrite reumatoide, esclerodermia, doença mista do tecido conjuntivo, lúpus eritematoso sistêmico). Mas pode ocorrer de forma isolada e ser de difícil diagnóstico: muitos pacientes passam por múltiplos médicos até chegar ao diagnóstico. Exames de sangue (anti-Ro e anti-La) ajudam. O teste de Schirmer aqui é essencial.
Uso de Roacutan / Isotretinoína
É bem conhecido que esses medicamentos causam olho seco e boca seca durante o tratamento. O que pouca gente sabe é que o uso, mesmo temporário, pode causar perda permanente de função das glândulas: o paciente pode desenvolver olho seco crônico ou apresentar olho seco apenas quando ficar mais velho (40-60 anos). Como o uso costuma ter sido anos antes, muitos pacientes não lembram de mencionar na consulta.
Cirurgia refrativa prévia
O PRK e o LASIK (cirurgia refrativa) causam olho seco temporário com frequência (até 50% dos pacientes referem sintomas nos primeiros 6 meses). A grande maioria recupera totalmente. Em uma minoria, o olho seco se torna crônico. Por isso é preciso muita cautela ao indicar cirurgia refrativa em pacientes com histórico de olho seco e doenças reumatológicas associadas.
Tipos de olho seco
O tratamento correto depende de identificar o tipo de olho seco, pra que a estratégia seja realmente eficaz.
Por deficiência de produção aquosa
A camada aquosa do filme lacrimal não é produzida adequadamente, e o paciente tem menos lágrima. Diagnosticado pelo Schirmer. Reposição com lágrima artificial e plugs de silicone nos pontos lacrimais dão os melhores resultados. Em casos graves, pode-se fechar permanentemente os pontos lacrimais (são dois por olho, um em cada pálpebra, que drenam a lágrima pro nariz pelo meato médio).
Por deficiência lipídica
Estágios da blefarite posterior (meibomite): inflamação da margem da pálpebra que gera olho vermelho e coceira. Nota-se a obstrução dos orifícios das glândulas de meibomius.
Muito comum, especialmente em portadores de blefarite ou meibomite. As glândulas gordurosas da margem das pálpebras ficam progressivamente "entupidas" e produzem mal a camada lipídica, ou produzem com qualidade ruim (lipídio espesso demais).
Indica-se principalmente a limpeza dos cílios com shampoo neutro infantil, Blephagel ou Systane Lid Wipes. O uso isolado de lágrima artificial é menos eficaz nesses casos, porque sem filme lipídico há evaporação exagerada do filme lacrimal.
Por mau fechamento dos olhos (lagoftalmo)
Lagoftalmo: quando o olho não fecha bem. Tem múltiplas causas.
Acontece após cirurgias de pálpebra, na paralisia de Bell (paralisia periférica do nervo facial), em sedações em UTIs e cirurgias, e em sequelas de AVC com comprometimento do nervo facial. O olho não fecha completamente: chamamos isso de lagoftalmo.
Há ressecamento porque o paciente não consegue piscar adequadamente nem manter os olhos fechados ao dormir. Tratamento envolve lágrimas artificiais, pomadas de lubrificação (Epitegel, Vidisic), pomadas cicatrizantes (Regencel), oclusão temporária (com micropore, suturas especiais ou técnicas similares) ou permanente de parte da fenda palpebral.
Trajeto da lágrima
Trajeto da lágrima: produzida pelas glândulas e escoada pelo sistema canalicular. A oclusão do ponto lacrimal pode ser muito útil em casos sérios de olho seco.
A lágrima é produzida pelas glândulas e drenada pelo sistema canalicular. Por isso a oclusão do ponto lacrimal (que represa a lágrima na superfície do olho) pode ajudar tanto nos casos mais sérios.
Outros corantes utilizados
Teste com verde lissamina mostra alterações corneanas em caso de olho seco.
Teste com corante rosa bengala em paciente com olho seco.
Os colírios lubrificantes são excelentes e dão alívio dos sintomas pra maioria dos pacientes. Existem formulações com conservantes (uso até 6x ao dia) e sem conservantes (pra mais de 6x ao dia, e ideais pra pacientes alérgicos ou com sensibilidade aumentada).
Os colírios à base de hialuronato geralmente dão mais alívio e maior poder hidratante do que os à base de carmelose sódica.
Exemplos de colírios prescritos
Sem conservantes: Hyabak, Thealoz Duo, Dews, Optive UD, Hiluropt, Lunah
Com conservantes: Lacrifilm, Lacribell, Ecofilm, Optive, Systane
Hoje existem colírios especiais que repõem a camada lipídica além da aquosa, como o Systane Complete.
Pode ser necessário testar mais de um tipo até achar o ideal pra cada paciente. Alguns pacientes preferem colírios mais "grossos" (como o Lunah 2mg), outros preferem mais líquidos. Algumas marcas dão sintomas pra um paciente e não pra outro: é comum precisar ajustar.
Suplementos de ômega 3 e vitamina D
Muitos pacientes têm ingestão insuficiente de ômega 3 e vitamina D na dieta e se beneficiam de suplementação específica. Formulações prontas: Preservit, L-CAPS D+. Alternativas: óleo de peixe, óleo de linhaça, vitamina D3.
O ômega 3 está naturalmente presente em peixes gordurosos (salmão) e no óleo de linhaça. A deficiência de vitamina D é muito comum, mesmo em jovens, especialmente nas regiões sul e sudeste do país, devido à menor incidência solar. O ideal é uma proporção adequada de ômega 3, ômega 6 e ômega 9 na dieta.
Limpeza dos cílios
A limpeza diária dos cílios é indicada pra maioria dos pacientes com olho seco e blefarite/meibomite. Ajuda muito nos sintomas de coceira, ardência e irritação, e melhora a drenagem natural das glândulas lipídicas das pálpebras. Pode ser feita com água morna ou após compressas mornas pra aumentar a eficácia.
Shampoo neutro infantil (Johnson amarelo): pingue uma gota, dilua com duas gotas de água morna, faça espuma, feche bem os olhos, limpe as pálpebras com a espuma e enxágue
Systane Lid Wipes: limpe com o lenço já umedecido, sem precisar enxaguar
Blephagel: aplique uma porção na compressa que vem no produto e limpe os cílios; não precisa enxaguar
Equipe médica
Nossa equipe de córnea e superfície ocular
Os especialistas em córnea da Ortolan acompanham casos de olho seco, blefarite, conjuntivite crônica, ceratocone e adaptação de lentes especiais.
Plug de silicone para ponto lacrimal
A oclusão temporária dos pontos lacrimais com plug de silicone é uma ótima ferramenta pra casos graves e crônicos de olho seco. É reversível e pode ser feita no consultório, opção valiosa pros casos mais sérios.
Luz pulsada (IPL)
iLUX: um dos aparelhos disponíveis no mercado para tratamento com luz pulsada nos casos de blefarite/meibomite.
O iLUX da Alcon e outros aparelhos de luz pulsada são tratamentos feitos no consultório que melhoram a lubrificação ocular. Indicados em casos de olho seco crônico e blefarite crônica. O tratamento é rápido (10-15 minutos) e pode ser repetido em esquema de várias sessões.
Quando procurar o oftalmologista
Olhos ardendo, vermelhos ou cansados de forma frequente
Sensação persistente de areia nos olhos
Visão embaçada que melhora ao piscar
Dificuldade prolongada pra ler ou usar telas
Uso prolongado de Roacutan no passado, mesmo sem sintomas atuais
Doença reumatológica conhecida (artrite reumatoide, lúpus, esclerodermia)
A maioria dos casos não tem "cura" definitiva, mas tem controle muito bom. Com o tratamento adequado pra cada tipo de olho seco — lubrificantes, limpeza de cílios, ômega 3, plug lacrimal ou luz pulsada quando necessário — a esmagadora maioria dos pacientes fica assintomática ou com sintomas leves e bem manejáveis.
Posso usar lágrima artificial sem prescrição?
Sim, lubrificantes sem conservantes (Hyabak, Hiluropt, Optive UD, Lunah) são seguros pra uso frequente. Evite colírios "vasoconstritores" sem prescrição (causam efeito rebote) e não use colírios com corticoide por conta própria. Se precisa lubrificar mais de 4-6 vezes por dia, é hora de procurar o oftalmologista pra investigar a causa.
Quanto tempo demora pra sentir melhora com o tratamento?
Com lágrimas artificiais, o alívio é imediato mas dura poucas horas. Com tratamentos da causa (limpeza de cílios, ômega 3, controle da meibomite), a melhora costuma aparecer em 4 a 8 semanas de uso consistente. Plugs lacrimais dão alívio em dias, e luz pulsada costuma melhorar progressivamente ao longo das sessões.
Usar telas de computador piora o olho seco?
Sim, e muito. Em frente à tela piscamos cerca de 50% menos do que o normal — isso aumenta a evaporação da lágrima. A regra 20-20-20 (a cada 20 minutos olhar pra algo a 6 metros por 20 segundos), pausas regulares e lubrificantes ajudam bastante. Veja também o artigo sobre síndrome da visão do computador.
Maquiagem e cílios postiços pioram o olho seco?
Sim. Maquiagem aplicada na linha interna dos cílios (waterline) entope as glândulas de meibomius e piora a meibomite. Cílios postiços e extensões podem causar tração mecânica e inflamação crônica. Se você tem olho seco, prefira maquiagem fora da margem palpebral, remova bem antes de dormir e faça pausas dos cílios postiços.
Este artigo substitui uma consulta com oftalmologista?
Não. O conteúdo é educativo e não substitui a avaliação presencial. O diagnóstico e o tratamento dependem do exame clínico individualizado.
Doutor em Oftalmologia pela USP, especialista em Cirurgia Refrativa, Catarata, Córnea, Ceratocone, Superfície Ocular (olho seco e disfunção das glândulas de meibômio) e Lentes de Contato. Fundador da Ortolan Oftalmologia.
A blefarite é a inflamação crônica da margem das pálpebras — uma das causas mais comuns de olho vermelho, ardor e coceira em adultos. Costuma estar ligada à disfunção das glândulas de meibômio (DGM), e por isso também é chamada de meibomite. É crônica, mas muito bem controlada quando o tratamento é dirigido à causa.
O ceratocone é uma doença progressiva da córnea que afina e deforma a parte da frente do olho em forma de cone, causando miopia e astigmatismo irregular. Quando diagnosticado a tempo, é estabilizado com crosslinking — nos casos avançados, exige lentes esclerais, anéis intraestromais ou transplante.
A conjuntivite é a inflamação da conjuntiva e costuma causar olho vermelho, lacrimejamento, desconforto e secreção. O tratamento depende da causa — viral, bacteriana, alérgica ou irritativa — e varia de simples cuidados em casa até antibiótico tópico ou anti-histamínicos.
Descubra como a microscopia especular de córnea (MEC) pode ajudar no diagnóstico e tratamento de doenças oculares. O pré-operatório de cirurgia de catarata é mais seguro com o uso da MEC. Saiba mais sobre essa tecnologia inovadora no nosso site da Ortolan Oftalmologia.
Descubra como a Tomografia de Coerência Óptica (OCT) de córnea oferece uma visão detalhada da saúde ocular, permitindo diagnósticos precisos e tratamentos eficazes. Saiba mais no nosso site da Ortolan Oftalmologia.
Tomografia de Coerência Óptica (OCT) de mácula e OCT de nervo óptico são essenciais para avaliar a saúde da retina e do nervo óptico, proporcionando diagnósticos precisos e guiando tratamentos eficazes. Saiba mais sobre essas tecnologias inovadoras no nosso site da Ortolan Oftalmologia.
Continue sua leitura
Outros artigos sobre o tema
Mais leituras para continuar pesquisando dentro do blog da Ortolan.
Guia Definitivo da Degeneração Macular (DMRI): Ciência e Cuidado com o Dr. Daniel Omote. Explicamos sobre causas, tipos de DMRI, tratamentos, Eylia HD, Vabysmo e mais
O trauma ocular, definido como qualquer lesão no olho, é um problema de saúde pública que pode ter consequências graves, incluindo a perda de visão. Este artigo visa aumentar a conscientização sobre o trauma ocular, seus tipos, causas e a importância de buscar atendimento médico imediato.
Continue sua leitura
Páginas principais da Ortolan
Acesse áreas centrais do site para conhecer exames, doenças, cirurgias e equipe médica.