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Guia Definitivo da Degeneração Macular (DMRI): Ciência e Cuidado com o Dr. Daniel Omote

Guia definitivo sobre Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI): causas, tipos (seca e úmida), sintomas, exames (OCT, retinografia, mapeamento), tratamentos com anti-VEGF, Eylia HD e Vabysmo, e suplementação AREDS2 — pela visão do Dr. Daniel Omote, especialista em retina e genética ocular pela USP.

Simulação de visão com degeneração macular — perda da visão central com preservação da visão periférica.

Olá, sou o Dr. Daniel Omote. Minha jornada como especialista em retina e genética ocular pela USP me ensinou que, por trás de cada diagnóstico de Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI), existe uma história de vida que merece ser preservada. Neste artigo, vamos mergulhar profundamente no que há de mais moderno sobre esta condição, desde a biologia celular até os exames para diagnóstico da DMRI que salvam visões diariamente.

Primeiro, por que é importante entender este assunto?

A DMRI causa perda importante da visão central. Muitas vezes, aceitamos as mudanças que vêm com a idade como inevitáveis — os cabelos brancos, as dores nas articulações... Mas quando se trata da nossa visão, o "desgaste" natural do tempo pode ter um nome específico e sério: Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI). Como especialista em retina pela USP, vejo diariamente a angústia de pacientes que notam o mundo ao seu redor perder a nitidez. Por isso, antes de falarmos sobre tratamentos e exames, preciso que você entenda exatamente o que é essa condição e quais sinais o seu olho envia quando algo não vai bem.

O que é a DMRI? O ataque ao centro da visão

Para entender o que é a DMRI, precisamos olhar para o centro de tudo: a mácula. Imagine que sua retina é o filme de uma câmera fotográfica; a mácula é a parte desse filme com a resolução mais alta, responsável por captar os detalhes finos, as cores vibrantes e tudo o que está diretamente na nossa frente.

Simulação de visão com degeneração macular — perda de visão central com preservação da visão periférica.
Simulação de visão com degeneração macular: perda da visão central com preservação da visão periférica — sintoma típico de DMRI.

A DMRI é uma doença progressiva que ataca justamente essa região vital. Ela é a principal causa de perda de visão central em idosos nos países desenvolvidos e, com o envelhecimento da nossa população, torna-se cada vez mais comum no Brasil.

Essencialmente, a doença causa uma deterioração das células da mácula, impedindo que você enxergue com clareza o que está focado. É importante notar que a DMRI raramente leva à cegueira total, pois a visão periférica (lateral) costuma ser preservada. No entanto, a perda da visão central impacta profundamente tarefas do dia a dia, como ler, dirigir ou reconhecer o rosto de um ente querido.

Sintomas da DMRI: a visão começa a falhar

Os sintomas da DMRI variam dependendo do estágio (inicial, intermediário ou avançado) e do tipo da doença (seca ou úmida). Frequentemente, nos estágios iniciais, a condição é silenciosa e o paciente não percebe nenhuma mudança. É por isso que o check-up oftalmológico anual é crucial após os 50 anos.

À medida que a doença progride, os seguintes sinais podem surgir:

  • Visão embaçada central: a leitura torna-se mais difícil e as cores podem parecer menos brilhantes ou desbotadas. Você pode sentir que precisa de mais luz para enxergar detalhes.
  • Distorção visual (metamorfopsia): sintoma clássico, especialmente na DMRI úmida. Linhas retas (como os batentes de uma porta, as linhas de um caderno ou os azulejos do banheiro) parecem onduladas, tortas ou distorcidas.
  • Mancha escura central (escotoma): com o avanço da atrofia ou o sangramento na mácula, uma mancha escura, cinzenta ou vazia pode aparecer bem no centro do seu campo visual. Essa mancha pode aumentar com o tempo.
  • Dificuldade em reconhecer rostos: devido à perda da nitidez central, torna-se desafiador identificar as feições das pessoas, mesmo estando próximas.

Se você notar qualquer um desses sintomas, especialmente a distorção súbita de linhas retas, procure um especialista em retina imediatamente. O tempo é fator crucial para preservar a visão, principalmente nos casos da forma úmida da doença.

A fisiologia da retina: onde a luz se torna imagem

A retina é um tecido de complexidade extraordinária. No seu centro, reside a mácula, responsável por nossa visão de alta definição. Abaixo dos fotorreceptores (cones e bastonetes), existe uma camada de suporte chamada Epitélio Pigmentar da Retina (EPR). O EPR funciona como uma usina de reciclagem: ele digere os segmentos externos dos fotorreceptores que se desgastam com a luz.

Gráfico de incidência de DMRI por idade — aumento após os 60 anos e pico após 70-80 anos em caucasianos.
Incidência da DMRI por idade: aumento progressivo após os 60 anos e pico expressivo após os 70–80 anos, especialmente em caucasianos. Fonte: National Eye Institute (EUA).

Com o envelhecimento e a influência da genética da DMRI, essa "usina" começa a falhar. O acúmulo de proteínas e lipídios não reciclados forma as drusas, depósitos amarelados que inflamam a retina. Quando essas drusas se tornam grandes ou numerosas, entramos no quadro de DMRI, que pode evoluir para a forma seca (atrofia) ou úmida (quando ocorre o crescimento de uma membrana neovascular subrretiniana).

Diagrama das camadas da retina humana — fotorreceptores e epitélio pigmentar.
Representação das camadas da retina, destacando o complexo fotorreceptor-EPR onde a DMRI se inicia.

Diferenciais e desafios diagnósticos

No consultório, é vital diferenciar a DMRI de outras doenças que "imitam" seus sintomas, garantindo o tratamento correto:

  • MacTel (telangiectasia macular tipo 2): afeta os vasos capilares ao redor da fóvea, mas sem as drusas típicas da DMRI.
  • Paquicoroide: espectro de doenças onde a camada de vasos abaixo da retina é muito espessa, podendo causar vazamentos que lembram a forma úmida.
  • Membrana neovascular miópica: ocorre em pacientes com alta miopia, independentemente da idade.

Principais exames para diagnóstico da DMRI

Para um tratamento eficaz, a precisão diagnóstica é fundamental. Abaixo, detalho as ferramentas que utilizamos na Ortolan Oftalmologia:

1. Mapeamento de retina

Como funciona: é um exame clínico em que o médico utiliza um oftalmoscópio indireto e uma lente de alta potência para avaliar toda a extensão da retina e do vítreo.

Preparo: necessita de dilatação pupilar. Tempo de exame: cerca de 15 a 20 minutos (contando o tempo de espera para a pupila dilatar). Importância: é a base para detectar drusas e alterações periféricas.

2. Retinografia colorida

Como funciona: uma fotografia de alta resolução do fundo do olho — funciona como uma documentação "viva" da evolução da doença. Preparo: geralmente requer dilatação pupilar. Tempo de exame: 5 a 10 minutos. Uso: permite comparar o tamanho e a quantidade de drusas ao longo dos anos.

Retinografia de fundo de olho mostrando DMRI intermediária.
Retinografia do fundo do olho mostrando DMRI intermediária — drusas extensas e alterações pigmentares no polo posterior.

Na fase intermediária da DMRI, os exames de imagem do fundo do olho (retinografia) geralmente revelam:

  • Drusas extensas: presença de depósitos amarelados sob a retina, maiores (geralmente >125 µm) ou mais numerosos do que na fase inicial.
  • Alterações pigmentares: mudanças no epitélio pigmentar da retina, que podem aparecer como manchas escuras ou áreas mais claras.
  • Visão central: o paciente pode começar a notar áreas borradas ou distorcidas no centro da visão, embora a progressão costume ser lenta.

3. OCT de retina (Tomografia de Coerência Óptica)

Como funciona: é o padrão-ouro. Utiliza feixes de luz para criar um corte transversal da retina com precisão micrométrica, sem tocar no olho.

Preparo: pode ser feito com ou sem dilatação (dependendo do equipamento), mas a dilatação melhora a qualidade da imagem. Tempo de exame: muito rápido, cerca de 5 minutos. Destaque: é essencial para identificar fluido (edema) na DMRI úmida e indicar a necessidade de injeção intravítrea.

Comparação de retinografia e OCT entre paciente normal e paciente com DMRI.
Comparativo: acima, paciente normal; abaixo, paciente com DMRI. À esquerda retinografia e à direita OCT de cada caso.

Suplementação AREDS2: a proteção baseada em evidências

O uso do suplemento AREDS2 e suas indicações são pilares no manejo da forma seca intermediária. A combinação de Luteína, Zeaxantina, Vitaminas C, E, Zinco e Cobre provou reduzir em 25% o risco de progressão para formas graves. Como geneticista, reforço: a suplementação é uma ferramenta de precisão, não um vitamínico comum de farmácia.

Checklist da saúde ocular (pessoas 50+)

A Tela de Amsler é uma ferramenta simples para detectar distorções visuais em casa — ideal para pacientes com risco aumentado de DMRI ou em acompanhamento.

Tela de Amsler para teste de visão central e detecção precoce de distorções na DMRI.
Tela de Amsler: ferramenta simples para detectar distorções visuais em casa e identificar a progressão da DMRI precocemente.

Tratamento da forma úmida da DMRI — opções de Anti-VEGF hoje

Na Ortolan Oftalmologia, utilizamos as moléculas mais modernas e seguras do mercado mundial. A escolha da droga depende das características genéticas e da resposta individual da retina de cada paciente.

  • Ranibizumabe (Lucentis®): uma das primeiras moléculas desenvolvidas especificamente para o olho. Tem um excelente perfil de segurança e eficácia comprovada por décadas.
  • Aflibercepte (Eylia®): molécula que permite duração prolongada do tratamento. Hoje temos a opção do Eylia HD descrita adiante em maior detalhe.
  • Brolucizumabe (Beovu®): molécula menor e muito concentrada, com grande poder de absorção de fluido retiniano.
  • Faricimabe (Vabysmo®): a mais recente inovação na área. É um anticorpo biespecífico — bloqueia duas vias diferentes da inflamação (VEGF e Ang-2). Isso oferece durabilidade maior do efeito, permitindo que alguns pacientes fiquem até 4 meses sem precisar de uma nova injeção.
  • Bevacizumabe (Avastin®): embora originalmente criado para oncologia, é amplamente utilizado de forma off-label na oftalmologia, com excelentes resultados e custo-benefício.

Como é feito o procedimento?

Muitos pacientes chegam ao consultório com medo da "picada no olho". É importante tranquilizá-los:

  • Anestesia: colírios e géis anestésicos potentes — o paciente sente apenas uma leve pressão.
  • Rapidez: o procedimento em si dura menos de 30 segundos.
  • Recuperação: é rápida — o paciente sai com o olho aberto (em alguns casos com curativo por poucas horas) e pode retomar a maioria das atividades no dia seguinte.

O protocolo "Treat-and-Extend"

Antigamente, as injeções eram mensais e para sempre. Hoje, como especialista em retina, utilizo o protocolo Treat-and-Extend (Tratar e Estender). Iniciamos com uma fase de ataque e, à medida que a retina seca, vamos aumentando o tempo entre as injeções. O objetivo é manter a retina seca com o menor número possível de aplicações, personalizando o tratamento para a biologia de cada olho.

Eylia HD: mais potência e menos injeções

Até pouco tempo, o padrão-ouro era o Eylia na concentração de 2 mg. O Eylia HD é uma formulação de alta dose, com 8 mg da medicação no mesmo volume de injeção. Mas o que isso significa na prática para o paciente com DMRI úmida?

1. Maior durabilidade (o efeito long-acting)

A principal vantagem do Aflibercepte 8 mg é a sua permanência ativa dentro do olho por muito mais tempo. Enquanto as medicações tradicionais exigem aplicações a cada 4 ou 8 semanas, o Eylia HD foi desenhado para permitir intervalos de 12 a 16 semanas (até 4 meses) entre as doses, logo após a fase inicial.

2. Controle superior do fluido retiniano

Nos estudos clínicos globais (como o estudo PULSAR), o Eylia HD demonstrou capacidade impressionante de "secar" a retina de forma rápida e sustentada. Para casos de membrana neovascular subrretiniana muito agressivas ou resistentes, essa dose maior oferece um bloqueio mais robusto do VEGF, reduzindo o edema de maneira mais eficaz.

3. Segurança consolidada

Apesar de ser quatro vezes mais concentrado, o perfil de segurança ocular e sistêmica do Eylia HD mostrou-se comparável ao da versão de 2 mg, o que nos dá muita tranquilidade na indicação clínica para nossos pacientes na Ortolan Oftalmologia.

O impacto na qualidade de vida

No meu dia a dia como Dr. Daniel Omote, percebo que o sucesso do tratamento para DMRI não é medido apenas pelas letras que o paciente lê na tabela, mas pela liberdade que ele recupera.

Poder estender o tempo entre as sessões de injeção intravítrea significa:

  • Menos faltas ao trabalho para os acompanhantes.
  • Menos estresse emocional para o paciente.
  • Menos custos com deslocamento e logística.
  • Maior adesão: o paciente não se sente "preso" ao consultório e, por isso, não falta às doses combinadas.

O Eylia HD é uma excelente opção de tratamento, permitindo que a medicina se adapte à vida do paciente, e não o contrário. Se você já faz tratamento e sente que as injeções estão frequentes demais, vale a pena discutirmos se o seu caso tem indicação para essa nova tecnologia de alta dose.

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Conclusão: o olhar do especialista

A DMRI exige vigilância. Na Ortolan Oftalmologia, unimos a tecnologia de ponta dos exames de imagem com o conhecimento genético para oferecer um cuidado personalizado. Se você tem mais de 50 anos ou possui casos na família, não espere os sintomas aparecerem.

Referências científicas

  • Guymer RH. The physiology of the RPE. The Lancet. 2023.
  • Ambati J. Mechanisms of age-related macular degeneration. Neuron. 2012.
  • Miller JW. VEGF and neovascularization. Ophthalmology. 2013.
  • Charbel Issa P. Macular telangiectasia type 2. PRER. 2013.
  • Cheung CMG. Pachychoroid disease spectrum. Progress in Retinal and Eye Research. 2019.
  • SBRV. Diretrizes Brasileiras de Retina e Vítreo. 2024.
  • Spaide RF. Optical Coherence Tomography in AMD. Retina Journal. 2022.
  • AREDS2 Research Group. Lutein + zeaxanthin for AMD. JAMA. 2013.
  • Heier JS, et al. Pegcetacoplan for geographic atrophy: OAKS and DERBY trials. The Lancet. 2023.
  • Heier JS, et al. Faricimab in neovascular AMD: TENAYA and LUCERNE trials. The Lancet. 2022.
  • Lanzetta P, et al. Intravitreal aflibercept 8 mg in neovascular AMD: 48-week results from the PULSAR trial. The Lancet. 2024.
  • Boyer DS, et al. High-dose aflibercept for macular diseases: review of PULSAR and PHOTON trials. J VitreoRetinal Dis. 2023.
Perguntas frequentes

Dúvidas comuns sobre este tema

A DMRI causa cegueira total?

Raramente. A DMRI afeta principalmente a visão central (mácula), mas a visão periférica costuma ser preservada. Mesmo em casos avançados, o paciente geralmente mantém alguma visão periférica — o que permite orientação espacial e locomoção. O impacto maior é em tarefas que exigem visão central fina, como leitura, direção e reconhecimento de rostos.

Qual a diferença entre DMRI seca e úmida?

A DMRI seca é a forma mais comum (cerca de 85–90% dos casos), caracterizada por acúmulo de drusas e atrofia gradual do epitélio pigmentar da retina. A DMRI úmida é menos comum, mas mais agressiva: envolve o crescimento de novos vasos sanguíneos anormais sob a retina (neovascularização coroideana), que podem sangrar, vazar e causar perda visual rápida. A forma úmida é tratável com injeções intravítreas de anti-VEGF.

Com que frequência preciso fazer as injeções?

Depende da resposta individual da retina. Começamos com uma fase de ataque (injeções mensais por 3 meses) e depois aplicamos o protocolo Treat-and-Extend, aumentando gradualmente o intervalo conforme a retina seca. Com Eylia HD e Vabysmo (Faricimabe), muitos pacientes conseguem intervalos de até 4 meses entre as doses, após a fase inicial.

Suplementos AREDS2 previnem a DMRI?

Os suplementos AREDS2 não previnem o surgimento da DMRI, mas reduzem em cerca de 25% o risco de progressão da forma intermediária para formas avançadas. São indicados para pacientes com DMRI intermediária ou com DMRI avançada em um dos olhos. Não há evidência de benefício em pacientes sem DMRI ou na forma inicial.

O que é a tela de Amsler e como usar?

É uma grade com um ponto central que permite ao paciente monitorar distorções visuais em casa. Basta olhar para o ponto central com um olho de cada vez, a 30 cm de distância, e observar se as linhas aparecem retas e contínuas ou se há distorções, manchas escuras ou áreas ausentes. Qualquer mudança deve ser comunicada ao oftalmologista imediatamente.

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