Doença

Conjuntivite bacteriana

A conjuntivite bacteriana é a inflamação da conjuntiva causada por bactérias — mais frequente em crianças. A maioria é leve e auto-limitada, mas casos como gonocócica (emergência), clamídia, MRSA e oftalmia neonatal exigem atenção urgente. Tratamento com antibiótico tópico na maioria.

Esquema ilustrado de conjuntivite — olho vermelho com secreção característica. Fonte: Servier Medical Art (smart.servier.com), CC BY 4.0.
Sintomas

O que é conjuntivite bacteriana?

A conjuntivite bacteriana é a inflamação da conjuntiva causada por infecção bacteriana direta. Produz secreção mucopurulenta (amarelada ou esverdeada, espessa, cola as pálpebras), hiperemia e irritação — geralmente menos contagiosa e mais curta que a viral. Os agentes mais comuns são Staphylococcus aureus, Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae (principal em crianças) e Moraxella. Em série brasileira (PS de Goiânia), 74,8% das conjuntivites agudas avaliadas eram bacterianas.

Embora a maioria seja auto-limitada em 7-14 dias mesmo sem tratamento, o colírio antibiótico acelera a resolução e reduz contágio. Casos especiais — conjuntivite hiperaguda gonocócica, clamídia, MRSA, oftalmia neonatal — exigem abordagem específica e podem ser emergências oftalmológicas.

Agentes mais comuns

  • Staphylococcus aureus — principal em adultos; risco emergente de MRSA comunitário (>30% das infecções oculares graves por S. aureus em séries americanas; >80% são fluoroquinolona-resistentes).
  • Streptococcus pneumoniae — comum em crianças, associado a quadros sistêmicos (otite, sinusite).
  • Haemophilus influenzaeprincipal agente em crianças, frequentemente com celulite periorbitária associada.
  • Moraxella catarrhalis — adultos, quadros mais arrastados.
  • Pseudomonas aeruginosa — rara em conjuntivite primária, mas importante em usuários de lente de contato e imunossuprimidos (risco de úlcera perfurativa rápida).

Casos especiais — atenção

Conjuntivite hiperaguda por Neisseria gonorrhoeae

Emergência oftalmológica. Secreção purulenta muito profusa ("jato de pus"), edema palpebral intenso, quemose, linfonodo pré-auricular doloroso. O gonococo pode perfurar a córnea em menos de 24 horas. Tratamento sistêmico obrigatório: ceftriaxona 1 g IM dose única + azitromicina 1 g VO (cobre coinfecção por clamídia). Coletar cultura + Gram antes de iniciar. Investigar IST no paciente e no parceiro.

Conjuntivite por Chlamydia trachomatis

Três apresentações principais. Tracoma: forma folicular crônica endêmica em regiões pobres — ~450 mil cegos e 190 milhões em risco globalmente. Tratamento SUS: azitromicina 20 mg/kg VO dose única (máx 1 g). Adulto sexualmente ativo: conjuntivite folicular crônica unilateral — investigar IST e tratar paciente e parceiros com azitromicina 1 g VO ou doxiciclina 100 mg 2x/dia por 7 dias. Oftalmia neonatal: responsável por ~40% dos casos no primeiro mês de vida; tratamento com eritromicina sistêmica (não só tópica) para prevenir pneumonia neonatal.

MRSA (S. aureus meticilino-resistente)

Emergente na comunidade. Quadros mais graves, mais resistentes. Fluoroquinolonas são frequentemente ineficazes; tratamento com vancomicina tópica manipulada ou TMP-SMX. Suspeitar em: falha de antibiótico empírico, abscesso palpebral, paciente institucionalizado ou com contato com profissional de saúde.

Oftalmia neonatal

Conjuntivite no primeiro mês de vida. Causas: clamídia (~40%), bactérias piogênicas, gonococo (<1%, mas grave), vírus (HSV). Toda secreção ocular em neonato exige cultura + Gram e tratamento sistêmico empírico até resultado. A profilaxia com nitrato de prata 1% ou eritromicina tópica ao nascimento reduz o risco.

Sintomas

  • Secreção purulenta ou mucopurulenta (amarela/esverdeada), espessa, cola as pálpebras ao acordar.
  • Hiperemia conjuntival bilateral ou inicialmente unilateral.
  • Sensação de corpo estranho, irritação, desconforto ao piscar.
  • Edema palpebral leve; quemose nos casos graves.
  • Sem linfonodo pré-auricular (diferente da viral).
  • Sem coceira dominante (diferente da alérgica).
  • Visão preservada — se há baixa de visão, investigar ceratite bacteriana ou úlcera corneana.

No gonococo hiperagudo: secreção em jato, edema palpebral "como osteomiyelite", linfonodo pré-auricular exuberante e doloroso, córnea pode perfurar em horas.

Diagnóstico

Diagnóstico

O diagnóstico é primariamente clínico: história, aspecto da secreção, ausência de linfonodo, ausência de coceira dominante. Exame em lâmpada de fenda com fluoresceína para descartar ceratite/úlcera, eversão palpebral para avaliar papilas e pseudomembranas.

Quando cultura é obrigatória

  • Oftalmia neonatal — sempre.
  • Suspeita de gonococo (secreção hiperaguda profusa).
  • Suspeita de clamídia (folicular crônica).
  • Conjuntivite grave, recorrente ou refratária ao antibiótico empírico.
  • Imunossuprimidos e pacientes institucionalizados (risco de MRSA).
  • Usuário de lente de contato com úlcera corneana.

Diagnóstico diferencial

  • Conjuntivite viral — secreção aquosa, linfonodo pré-auricular palpável, folículos (não papilas).
  • Conjuntivite alérgica — coceira dominante, bilateral, papilas tarsais, história atópica.
  • Ceratite bacteriana ou úlcera corneana — dor intensa, fotofobia, baixa de visão, infiltrado corneano visível com fluoresceína. Emergência.
  • Endoftalmite — hiperemia + baixa de visão + hipópio.
  • Celulite periorbitária/orbitária — edema, proptose, restrição motora; pediátrica frequentemente por H. influenzae.

Quando é urgência

  • Dor ocular intensa (além do desconforto habitual).
  • Queda de visão ou visão embaçada persistente.
  • Secreção em jato, profusa (gonococo).
  • Olho em neonato — sempre avaliar urgentemente.
  • Usuário de lente de contato com olho vermelho — risco de úlcera corneana.
  • Edema palpebral extenso, proptose, febre — suspeita de celulite orbitária.
  • Imunossuprimidos, transplantados, oncológicos.
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Próximos passos para conjuntivite bacteriana

Se conjuntivite bacteriana se parece com o seu quadro, a equipe pode orientar pelo WhatsApp qual especialista costuma avaliar, quais exames entram primeiro e quando vale acelerar a consulta.

Falar sobre esta condição
Tratamento

Tratamento

Antibiótico tópico — primeira linha

  • Cloranfenicol 0,5% colírio ou pomada — 1 gota 4-6x/dia por 5-7 dias. Ampla cobertura, boa penetração.
  • Tobramicina 0,3% colírio — 1 gota 4-6x/dia. Boa cobertura para gram-positivos e gram-negativos.
  • Moxifloxacino 0,5% (Vigamox) — fluoroquinolona de 4ª geração, 1 gota 3x/dia por 5-7 dias. Atenção à resistência crescente de MRSA.
  • Polimixina B + trimetoprima (Polytrim) — 1 gota 4x/dia. Boa para flora pediátrica.
  • Ciprofloxacino 0,3% — alternativa; evitar em crianças <1 ano.

Via sistêmica — casos especiais

  • Gonocócica: ceftriaxona 1 g IM dose única + azitromicina 1 g VO (cobre clamídia).
  • Clamídia adulta: azitromicina 1 g VO dose única OU doxiciclina 100 mg 2x/dia por 7 dias. Tratar parceiros.
  • Tracoma: azitromicina 20 mg/kg VO dose única (máx 1 g). Protocolo SUS.
  • Oftalmia neonatal por clamídia: eritromicina 50 mg/kg/dia VO divididos em 4 doses por 14 dias (previne pneumonia neonatal).
  • MRSA: vancomicina tópica manipulada (25-50 mg/mL), TMP-SMX em casos graves.

Higiene local

  • Compressas mornas para amolecer secreção, remover com gaze umedecida.
  • Lavagem das mãos antes e depois de qualquer contato com os olhos.
  • Toalha, fronha e lenço individuais.
  • Não compartilhar colírio, maquiagem ou óculos.

Lente de contato

  • Suspender uso imediatamente até resolução completa.
  • Trocar o estojo e descartar as lentes em uso.
  • Rever higiene e solução de limpeza antes de reintroduzir.

Complicações

  • Ceratite bacteriana e úlcera corneana — emergência; risco maior em usuários de lente.
  • Perfuração corneana no gonococo em <24h se não tratado.
  • Endoftalmite — muito rara, risco em cirurgias recentes.
  • Celulite periorbitária/orbitária — em crianças por H. influenzae.
  • Tracoma crônico com entrópio e cegueira — em áreas endêmicas sem tratamento.

Prevenção

  • Lavagem das mãos com frequência.
  • Não compartilhar toalhas, fronhas, colírios ou maquiagem.
  • Trocar maquiagem de olhos (rímel, delineador) após infecção.
  • Higiene rigorosa de lentes de contato; descartar lentes usadas durante surto.
  • Profilaxia neonatal (nitrato de prata 1% ou eritromicina tópica).
  • Tratamento de IST (gonococo, clamídia) em pacientes e parceiros.

Na Ortolan Oftalmologia, as conjuntivites são avaliadas com lâmpada de fenda, cultura quando indicado e tratamento direcionado. Em casos de olho seco concomitante ou uso crônico de colírios, também avaliamos a superfície ocular. Agende uma consulta padrão.

Referências

  • EyeWiki — Bacterial Conjunctivitis. American Academy of Ophthalmology. eyewiki.aao.org/Bacterial_Conjunctivitis.
  • Azari AA, Barney NP. Conjunctivitis: a systematic review of diagnosis and treatment. JAMA. 2013;310(16):1721-1729. PMC4049531.
  • StatPearls — Bacterial Conjunctivitis. NCBI Bookshelf. ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK546683.
  • Ministério da Saúde do Brasil. Tracoma: informações e diretrizes de tratamento. gov.br/saude.
  • American Academy of Ophthalmology — EyeNet. MRSA Ophthalmic Infection: Current Realities. aao.org/eyenet.
  • Sheikh A, Hurwitz B, van Schayck CP, McLean S, Nurmatov U. Antibiotics versus placebo for acute bacterial conjunctivitis. Cochrane Database Syst Rev. 2012.
  • Silva MN, Medeiros JS, Oliveira LC, et al. Perfil epidemiológico das internações por conjuntivite no Brasil, 2019-2024. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences. 2025.
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Perguntas frequentes

Dúvidas comuns sobre Conjuntivite bacteriana

Toda secreção amarelada significa conjuntivite bacteriana?

Não necessariamente. Secreções virais também podem amarelar depois de horas sem limpeza. O conjunto — aspecto da secreção, presença de linfonodo pré-auricular, início, contexto — é que define o diagnóstico.

Preciso de colírio antibiótico ou posso esperar passar sozinho?

A maioria das conjuntivites bacterianas é auto-limitada em 7-14 dias. O colírio antibiótico acelera a resolução, reduz contágio e previne complicações — é recomendado em adultos sintomáticos, crianças e todos os casos com secreção purulenta franca.

Posso compartilhar colírio com outra pessoa da casa?

Nunca. O colírio pode contaminar e transmitir a infecção. Cada pessoa deve ter o próprio frasco. E durante o tratamento, atenção à higiene das mãos.

Preciso parar de usar lentes de contato?

Sim, imediatamente. Lentes de contato em olho infectado aumentam muito o risco de ceratite bacteriana e úlcera corneana. Descarte as lentes em uso e o estojo. Volte ao uso só após liberação médica.

Preciso me afastar do trabalho ou escola?

Depende da intensidade. Conjuntivite bacteriana é menos contagiosa que a viral, mas durante a fase de secreção ativa, o afastamento de 3-5 dias é prudente — especialmente para profissionais de saúde, professores e trabalhadores de creche.

Quando o médico pede cultura?

Em oftalmia neonatal, suspeita de gonococo (secreção em jato), conjuntivite grave ou refratária, suspeita de clamídia (folicular crônica), usuários de lente com suspeita de úlcera, imunossuprimidos e casos recorrentes.

Conjuntivite gonocócica é urgência?

Sim. O gonococo pode perfurar a córnea em menos de 24 horas. Tratamento é sistêmico (ceftriaxona IM + azitromicina VO), com internação em casos graves. Toda secreção "em jato" com edema palpebral intenso exige avaliação imediata.

Meu bebê tem olho vermelho com secreção. O que fazer?

Avaliação urgente. Oftalmia neonatal pode ser gonocócica (rara mas gravíssima), clamídia (40% dos casos), bacteriana comum ou por herpes — tratamentos muito diferentes. Nunca automedicar em neonato; ir ao pronto-atendimento.

Fontes confiáveis

Referências para aprofundar a leitura com segurança.

Essas referências servem para complementar a leitura. A decisão diagnóstica e terapêutica deve sempre ser individualizada em consulta oftalmológica.

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