Doença

Conjuntivite viral

A conjuntivite viral é a forma mais comum de olho vermelho inflamatório — cerca de 80% dos casos, a maioria por adenovírus. É extraordinariamente contagiosa e geralmente auto-limitada em 7-14 dias. Formas graves (EKC, herpes simples, herpes-zóster) podem deixar sequelas corneanas importantes.

Olho vermelho em conjuntivite viral.
Sintomas

O que é e por que é tão comum?

A conjuntivite viral é a inflamação da conjuntiva causada por um vírus. É, disparada, a forma mais frequente de conjuntivite: estima-se que até 80% dos quadros de olho vermelho inflamatório no adulto sejam virais, e destes, 65% a 90% são causados pelo adenovírus.

A razão é simples e incômoda: os vírus são extraordinariamente contagiosos. O adenovírus pode permanecer ativo em superfícies não porosas por mais de 30 dias — maçanetas, celulares, teclados, controles, torneiras, toalhas. Uma mão contaminada levada ao olho é suficiente para iniciar um caso. Em ambientes coletivos — escolas, creches, academias, consultórios — surtos se espalham rapidamente.

No Brasil, é endêmica com picos sazonais no verão e início do outono. Um levantamento registrou 23.166 internações por conjuntivite entre 2020 e 2025, com predomínio do Sudeste (65,52%). Embora geralmente auto-limitada, formas graves podem deixar manchas corneanas que duram meses, cicatriz permanente (herpes) ou ser emergências (herpes-zóster oftálmico).

Os principais agentes virais

Adenovírus — o protagonista

Responde pela maioria absoluta das conjuntivites virais. Existem mais de 50 sorotipos, organizados em seis subgrupos. Dois cenários clínicos principais:

  • Ceratoconjuntivite epidêmica (EKC) — sorotipos 8, 19, 37, 53, 54 e 64 (subgrupo D). Forma mais grave, com maior risco de envolvimento corneano.
  • Febre faringoconjuntival (PCF) — sorotipos 3, 4 e 7. Quadro sistêmico com febre, faringite e conjuntivite, mais comum em crianças.

Em estudo brasileiro (Viçosa/MG), 36,3% dos pacientes com conjuntivite tinham origem adenoviral confirmada.

Herpes simples (HSV)

O vírus HSV-1 — o mesmo do "herpes labial" — pode acometer o olho e provocar desde conjuntivite folicular leve até ceratite dendrítica: úlcera ramificada característica na córnea. Incidência global de ceratite herpética: 24 casos por 100.000/ano, ~1,7 milhão no mundo. Quase sempre unilateral, tende a recorrer (10% em 1 ano, 23% em 2 anos, 50% em 10 anos) e pode deixar cicatriz corneana permanente.

Herpes-zóster oftálmico (HZO)

Reativação do vírus da varicela no ramo oftálmico do trigêmeo (V1). Ocorre em 10-25% dos casos de zóster e, desses, cerca de metade evolui com comprometimento ocular. Mais comum após os 60 anos e em imunossuprimidos. O sinal de Hutchinson (vesículas na ponta do nariz) é marcador clássico de risco ocular.

Enterovírus e coxsackievírus — conjuntivite hemorrágica aguda

Enterovírus 70 e coxsackievírus A24 variante causam a conjuntivite hemorrágica epidêmica aguda. Quadro dramático: incubação de 1-2 dias, dor intensa, fotofobia, edema palpebral e — em 70-90% dos casos por EV70 — hemorragias subconjuntivais que deixam a parte branca do olho vermelho-sangue. Auto-limitado em 5-7 dias.

Molusco contagioso

Poxvírus que forma pápulas pequenas com depressão central na margem palpebral, liberando antígenos no filme lacrimal e causando conjuntivite folicular crônica unilateral. Tratamento: excisão ou curetagem da lesão palpebral.

Subtipos adenovirais — EKC e PCF

EKC — ceratoconjuntivite epidêmica

Forma clássica em adultos. Começa unilateral, com olho vermelho, lacrimejamento, sensação de areia e, frequentemente, linfonodo pré-auricular palpável e doloroso — achado que praticamente sela o diagnóstico viral. Em dias o segundo olho é acometido. Em casos graves surgem pseudomembranas no tarso, edema palpebral e quemose.

A partir do 7º-10º dia pode aparecer a complicação mais temida: infiltrados subepiteliais — acúmulos de células inflamatórias abaixo do epitélio corneano. Ocorrem em 20-50% dos pacientes com EKC e podem persistir semanas, meses ou até anos, causando fotofobia, ofuscamento e baixa de visão.

PCF — febre faringoconjuntival

Mais comum em crianças, em surtos ligados a piscinas e salas de aula. Tríade clássica: febre alta + faringite + conjuntivite bilateral. Resolve em 2-3 semanas.

Sintomas

  • Início unilateral, com progressão para o outro olho em 4-7 dias (metade dos casos).
  • Hiperemia conjuntival — olho vermelho difuso.
  • Secreção aquosa ou mucoide, não purulenta. Olhos podem ficar grudados pela manhã, mas não há o pus espesso amarelo-esverdeado das bacterianas.
  • Sensação de corpo estranho, desconforto ao piscar, prurido leve, lacrimejamento.
  • Linfonodo pré-auricular palpável — sinal bastante específico das virais.
  • Fotofobia — leve no início, pior se há acometimento corneano.
  • Sintomas sistêmicos — quadro gripal, dor de garganta, febrícula, especialmente na PCF.

Na conjuntivite hemorrágica aguda (enteroviral), o olho fica vermelho-sangue. Na HSV, há vesículas palpebrais e dendrito corneano. No HZO, rash vesicular na testa/pálpebra superior respeitando a linha média é patognomônico.

Diagnóstico

Diagnóstico clínico

O diagnóstico é predominantemente clínico: história (contato recente, início unilateral, IVAS, ambiente coletivo), inspeção (aspecto da secreção, folículos, pseudomembranas) e exame em lâmpada de fenda com fluoresceína e palpação do linfonodo pré-auricular resolvem praticamente todos os casos.

Recursos adicionais em situações específicas: teste rápido para adenovírus (AdenoPlus), sensibilidade 88%, especificidade 91%. PCR ou cultura viral reservados para casos atípicos, imunossuprimidos ou investigação epidemiológica.

Sinais específicos por agente

  • Linfonodo pré-auricular + folículos tarsais — padrão adenoviral.
  • Hemorragia subconjuntival extensa, início superagudo — enterovírus/coxsackievírus.
  • Úlcera dendrítica com fluoresceínaherpes simples até prova em contrário.
  • Rash vesicular dermatomérico V1 respeitando a linha média — herpes-zóster oftálmico. Sinal de Hutchinson aumenta chance de envolvimento ocular.
  • Nódulos umbilicados na margem palpebral + conjuntivite crônica unilateral — molusco contagioso.
  • Febre + faringite + conjuntivite bilateral em criança — PCF adenoviral.
  • Pseudomembrana, edema palpebral marcado, infiltrados subepiteliais após 7-10 dias — EKC.

Diagnóstico diferencial

  • Conjuntivite bacteriana — secreção purulenta espessa, sem linfonodo, resposta rápida ao antibiótico.
  • Conjuntivite alérgica — coceira intensa e dominante, bilateral desde o início, papilas, história atópica.
  • Ceratites não virais — bacteriana, fúngica, por Acanthamoeba (risco em usuários de lente).
  • Glaucoma agudo — dor intensa, visão turva, halos, pupila em média midríase. Emergência.
  • Uveíte, esclerite, episclerite — dor mais profunda, padrão distinto de hiperemia.

Complicações

  • infiltrados subepiteliais pós-EKC — 20-50% dos casos graves, aparecem entre 7º e 10º dia, duram semanas a anos. Em um estudo, 25,9% dos pacientes com EKC tinham infiltrados subepiteliais sintomáticos persistindo além de 45 dias.
  • Pseudomembranas — em casos adenovirais graves, devem ser removidas em consultório.
  • Ceratite estromal e cicatriz corneana no HSV — compromete visão permanentemente em 24-42% da forma estromal.
  • Neuralgia pós-herpética, ceratopatia neurotrófica, uveíte e glaucoma no HZO.

Tempo de evolução

  • Conjuntivite viral simples (adenoviral leve): 7-10 dias.
  • EKC: 2-3 semanas na fase aguda.
  • infiltrados subepiteliais pós-EKC: meses a anos.
  • Conjuntivite hemorrágica aguda: 5-7 dias.
  • HSV epitelial tratado: resolve em ~2 semanas em 99% dos casos.
  • HZO: 2-6 semanas fase aguda; neuralgia pós-herpética pode persistir por meses.
Contato rápido

Próximos passos para conjuntivite viral

Se conjuntivite viral se parece com o seu quadro, a equipe pode orientar pelo WhatsApp qual especialista costuma avaliar, quais exames entram primeiro e quando vale acelerar a consulta.

Falar sobre esta condição
Tratamento

Transmissão e prevenção

A medida mais importante é — e sempre será — lavar as mãos. Água e sabão ou álcool 70%, com frequência, durante todo o quadro e pelo menos duas semanas após o início.

  • Toalha, fronha e lenço individuais; trocar fronha diariamente.
  • Não compartilhar colírio, maquiagem, óculos ou estojos de lente.
  • Suspender uso de lente de contato até liberação. Descartar lentes e estojos.
  • Não coçar, pressionar ou massagear os olhos.
  • Evitar piscinas, academias, saunas, praia e contato próximo durante a fase sintomática.
  • Desinfetar celular, maçanetas, controles, teclado e torneira com álcool 70%.
  • Evitar contato com crianças pequenas, imunossuprimidos e idosos.

Afastamento de escola e trabalho: enquanto houver olho vermelho ativo e secreção, o afastamento é a conduta mais segura — em geral, 7 a 14 dias, conforme evolução e profissão.

Tratamento

Medidas de suporte

  • Compressas frias sobre os olhos fechados, 3-4x/dia.
  • Lágrima artificial sem conservantes, 4-8x/dia.
  • Higiene palpebral com soro fisiológico para retirar secreção seca.
  • Analgesia simples (paracetamol, dipirona) se necessário.
  • Suspender lente de contato até resolução completa.

Antivirais — apenas quando indicado

  • HSV (ceratite dendrítica): ganciclovir gel 0,15% 5x/dia ou aciclovir pomada 3% 5x/dia, ou aciclovir oral 400 mg 5x/dia por 7-10 dias, ou valaciclovir 500 mg 3x/dia. ~99% resolvem em 2 semanas.
  • HZO: valaciclovir 1 g 3x/dia por 7-10 dias (primeira escolha), iniciado idealmente nas primeiras 72 horas do rash.
  • Adenovírus: não há antiviral aprovado. Estudos preliminares com povidona-iodada 5% em dose única mostraram redução da carga viral.

Corticoide tópico — com muita cautela

Na fase aguda adenoviral, o corticoide tende a prolongar a replicação viral e aumentar recidiva. Nunca deve ser usado sem supervisão oftalmológica e jamais com suspeita de HSV — pode transformar dendrite simples em úlcera geográfica com sequela permanente.

Indicações aceitáveis, sempre em consultório: pseudomembranas significativas (após remoção mecânica), infiltrados subepiteliais sintomáticos com baixa de visão após a fase aguda, uveíte associada ao HZO.

Antibiótico — não para conjuntivite viral

Vírus não respondem a antibiótico. Uso empírico não abrevia o quadro, não previne bacteriana secundária em imunocompetentes e pode causar reações locais, selecionar bactérias resistentes e mascarar diagnósticos mais sérios.

Quando procurar com urgência

  • Dor ocular intensa (além do desconforto habitual).
  • Queda de visão ou visão embaçada que não melhora ao piscar.
  • Fotofobia muito marcada.
  • Pseudomembranas visíveis ao virar a pálpebra.
  • Suspeita de HSV (vesículas, dendrite) ou HZO (rash dermatomérico V1).
  • Usuário de lente de contato com olho vermelho — sempre avaliar para excluir úlcera microbiana.
  • Criança pequena, recém-nascido ou imunossuprimido.
  • Quadro que piora após 7-10 dias em vez de melhorar.

Na Ortolan Oftalmologia, as conjuntivites virais são avaliadas com lâmpada de fenda, pesquisa de dendrite com fluoresceína, palpação de linfonodo pré-auricular e, quando apropriado, teste rápido para adenovírus. Agende sua avaliação.

Referências

  • EyeWiki — Epidemic Keratoconjunctivitis. American Academy of Ophthalmology. eyewiki.org/Epidemic_Keratoconjunctivitis.
  • EyeWiki — Herpes Zoster Ophthalmicus. eyewiki.org/Herpes_Zoster_Ophthalmicus.
  • Than T, Morettin CE, Harthan JS, et al. Efficacy of a Single Administration of 5% Povidone-Iodine in the Treatment of Adenoviral Conjunctivitis. Am J Ophthalmol. 2021. PMID 34102153.
  • American Academy of Ophthalmology. Herpes Simplex Virus Keratitis: A Treatment Guideline. 2014.
  • Farooq AV, Shukla D. Incidence of Herpes Simplex Virus Keratitis and Other Ocular Disease: Global Review and Estimates. Ophthalmic Epidemiol. 2021.
  • Young RC, Hodge DO, Liesegang TJ, Baratz KH. Incidence, Recurrence, and Outcomes of Herpes Simplex Virus Eye Disease in Olmsted County, Minnesota, 1976-2007. JAMA Ophthalmol. 2010.
  • Resende LSA, et al. Prevalência de conjuntivite adenoviral em Viçosa (MG). Rev Bras Oftalmol. SciELO.
  • Kono R, Sakata H, Shimizu N, et al. Clinical and epidemiological study of acute hemorrhagic conjunctivitis by enterovirus 70. J Hyg (Lond). 1986;97:159-170.
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Perguntas frequentes

Dúvidas comuns sobre Conjuntivite viral

Quanto tempo dura a conjuntivite viral?

A forma mais comum (adenoviral simples) dura entre 7 e 14 dias. Casos mais graves com EKC podem levar 2 a 3 semanas na fase aguda, e parte dos pacientes desenvolve manchas corneanas (infiltrados subepiteliais) que persistem por meses.

Preciso me afastar do trabalho ou da escola?

Sim, na maioria dos casos. Enquanto há olho vermelho ativo e secreção, o risco de transmissão é alto. Afastamento típico: 7 a 14 dias. Professores, profissionais de saúde e trabalhadores de creche têm critério mais rigoroso.

Crianças podem voltar à escola com os olhos ainda vermelhos?

O ideal é aguardar resolução da secreção e melhora franca da hiperemia. Crianças pequenas têm contato próximo constante e dificuldade de higiene. Muitas escolas exigem liberação médica em caso de surto.

Posso usar lente de contato durante a conjuntivite?

Não. Suspenda o uso imediatamente e mantenha os óculos até liberação. Descarte as lentes em uso e o estojo. Em casos de HSV ou corneanos, a volta à lente só deve ocorrer após avaliação completa.

Antibiótico em colírio resolve conjuntivite viral?

Não. Vírus não respondem a antibiótico. Uso desnecessário causa reações locais, mascara diagnóstico e contribui para resistência bacteriana. Só se indica com evidência de superinfecção bacteriana.

Por que o médico disse para não usar corticoide?

Na fase aguda adenoviral, corticoide prolonga a replicação viral e aumenta o risco de recidiva. Se o quadro for herpético, pode transformar dendrite em úlcera geográfica. Reservado a situações específicas com supervisão oftalmológica.

A conjuntivite viral pode deixar sequela na visão?

Na maioria dos casos, não. Três cenários de risco: EKC grave com infiltrados subepiteliais, HSV com ceratite estromal (cicatriz permanente possível) e HZO com envolvimento corneano profundo. Acompanhamento após a fase aguda importa nos casos graves.

Existe vacina para prevenir conjuntivite viral?

Não há vacina para adenovírus, HSV ou enterovírus. Já para herpes-zóster, a vacina recombinante (Shingrix) é recomendada a partir dos 50 anos e reduz substancialmente o risco de zóster oftálmico.

Fontes confiáveis

Referências para aprofundar a leitura com segurança.

Essas referências servem para complementar a leitura. A decisão diagnóstica e terapêutica deve sempre ser individualizada em consulta oftalmológica.

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